O cientista político Josué Medeiros avalia que a conclusão do pacto comercial reforça a narrativa de Lula como pragmático e líder de mercado, blindando-o contra ataques da oposição.
A aprovação política do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia nesta sexta-feira (9) representa um ativo político imediato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo análise do cientista político Josué Medeiros (UFRJ/OPEL). O pacto, que cria uma área de livre-comércio envolvendo cerca de 700 milhões de pessoas, pode ser explorado na comunicação do governo para diminuir resistências no centro e em setores produtivos, mesmo antes de gerar efeitos econômicos diretos no eleitorado.
O Efeito ‘Vacina’ Contra Ataques
Na avaliação de Medeiros, o ganho mais imediato de Lula é político: o acordo funciona como uma “vacina” contra um dos ataques mais frequentes da oposição ao PT, que acusa a esquerda de ser hostil à economia de mercado, ao empresariado e à agenda de integração comercial. Ao reivindicar o protagonismo na concretização de um acordo negociado desde 1999 e destravado no final de 2024, Lula obtém um argumento robusto de defesa.
Blindagem no Centro e Redução da Rejeição
Em um ambiente polarizado, a disputa eleitoral de 2026 tende a ser decidida pelos segmentos do eleitorado que não estão totalmente alinhados a nenhum dos lados. Para esse eleitorado mais ao centro, a acusação de hostilidade do PT ao mercado costuma ganhar força. O acordo Mercosul-UE serve como um “carimbo de credibilidade” para rebater essa narrativa e desmobilizar pânicos políticos, como o de que o Brasil se tornaria uma “Venezuela”, afirmou o cientista político.
A meta mais realista é reduzir a rejeição e fazer com que a vitória de Lula seja percebida por segmentos da elite econômica e formadores de opinião como “administrável”. Isso diminui os incentivos para uma campanha altamente agressiva contra o governo, favorecendo quem busca a reeleição.
Benefícios Comerciais e Articulação Política
O pacto prevê a eliminação gradual de tarifas sobre cerca de 91% do comércio entre os blocos. O discurso eleitoral pode simplificar esses dados, prometendo mais acesso a mercados e previsibilidade para exportadores, especialmente do agronegócio, que enfrenta tarifas elevadas na Europa.
Medeiros ainda destacou que o acordo será um instrumento de articulação política. Ao favorecer cadeias exportadoras, a iniciativa pode diminuir resistências em setores estratégicos como o agro e a indústria. A conclusão do acordo com a UE é vista como parte de uma dinâmica maior que deve incluir esforços para acordos com países asiáticos, como Índia e Coreia do Sul, fortalecendo a imagem de Lula como líder diplomático.
